Documentário revive o passado para conscientizar no presente

Entre as atividades do Festival Santa Cruz de Cinema está programada a exibição e estudo de caso do filme “A Vida-Extraordinária de Tarso de Castro”. A atividade será conduzida pelo diretor e produtor da película, Leo Garcia, mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha).

O documentário biográfico revive a história de Tarso de Castro, um dos fundadores do Pasquim, um dos maiores jornais independentes da história do país. Ainda que em tempos de Ditadura, o jornalista resistiu à pressão. Criava histórias satíricas e críticas em relação ao governo e à cultura nacional.

Em um período turbulento na política, onde se discute a possibilidade de uma volta da ditadura, além da influência e papel da mídia, os assuntos abordados pelo filme não poderiam ser mais atuais. Conversamos com Leo Garcia para saber mais sobre a atividade, sobre o processo de produção do documentário e a relação da produção com polêmicas atuais.

Confira abaixo a entrevista:

Hipermídia: Quanto tempo o documentário A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro levou para ser produzido e finalizado?

Leo: A gente começou a esboçar ele entre 2011, 2012, e até conseguir levantar verba de edital e efetivamente produzir, fomos lançar ele efetivamente em 2017.

Hipermídia: Quais os desafios de produzir um documentário bibliográfico de uma pessoa que já não está mais entre nós?

Leo: Os desafios foram muito grandes no início, ainda mais porque o Tarso geralmente estava por trás da câmera. A gente não tinha muito acesso a imagens em que ele aparecia. Então a gente teve um trabalho bem importante de pesquisa, de resgate de materiais de arquivo. A gente foi encontrando muitas pérolas nesse caminho. Então foi realmente um desafio muito grande e esse é um dos temas que eu vou abordar no estudo de caso.

Hipermídia: E os desafios de se produzir um documentário?

Leo: Os desafios de fazer um documentário… acho até que dá para expandir mais e falar sobre os desafios de fazer cinema. É muito difícil, mas acho que está menos difícil do que era há alguns anos. Está mais barato, entre aspas. O nosso documentário é um documentário de baixo orçamento, mas de qualquer maneira, como eu te falei, a gente demorou muitos anos porque a gente tinha que ter alguma verba, tinha que viajar, tinha que ter verba para comprar música, pois precisávamos muito retratar uma época, contar a história de uma geração, era uma questão importante para nós.

Hipermídia: O documentário revive o período da Ditadura Militar e toda a censura pela qual passaram os meios de comunicação. Hoje vivemos um período em que algumas pessoas pedem pela volta do regime militar. Como você vê esse posicionamento?

Leo: Essa pergunta eu acho que é realmente muito pertinente nesse momento. Não faz muito tempo as pessoas tinham vergonha, era um tabu. Nos anos 90, início dos anos 2000, achar alguém que defendia era difícil. Aos poucos eles foram colocando as “asinhas de fora” e hoje em dia virou bonito. A gente vê que o próprio favorito a ganhar a eleição no momento, para nossa imensa tristeza e desilusão, defende abertamente a volta da Ditadura Militar e censura. Eu acho que é um misto de ignorância com falta de empatia e, enfim, é um momento muito, muito triste e complicado do país.  Acho que o nosso documentário acaba contribuindo para mostrar… lembrar talvez as pessoas, os que se fazem de esquecidos ou as novas gerações que não viveram esses tempos tão escuros, para tentar reagir antes que o pior aconteça.

Hipermídia: O documentário explora a forma de fazer jornalismo na época da censura, período em que ainda que os jornais fossem constantemente monitorados, profissionais não se deixaram intimidar e chegaram a arriscar a própria pele em benefício da verdade, pelo compromisso com o ideal de conseguir uma vida melhor para as pessoas. Comparando com o jornalismo que temos hoje, acredita que o jornalismo está menos “doa a quem doer” e está mais preocupado com receita/lucro?  O jornalismo “raiz” não existe mais?

Leo: Pois é, o nosso filme fala muito sobre isso, sobre as diferenças daquele jornalismo feito nos anos 50, 60, 70 e hoje em dia. Então acho que sim, mudou muito, é outra coisa praticamente, e a gente tem esse tom nostálgico no nosso filme. Claro que o “jornalismo raiz” que tu comenta, o jornalismo Tarso de Castro, é difícil de encontrar hoje em dia. Mas existe, nesse cenário tão complicado que a gente se encontra, tão triste, da imprensa, do jornalismo dos grandes monopólios de mídia, dessa opinião sempre todos pensando de uma maneira igual, a gente consegue visualizar uma pequena parcela diferenciada.  O jornalismo ainda pode ser bem feito. Sou otimista e de fato consumo algumas coisas interessantes. O próprio Tarso nos ensina que não existe jornalismo imparcial, então, pelo menos, que seja um jornalismo parcial, mas ético, honesto. Já está de bom tamanho. Então, nesse sentido, dá um pouco de saudade de uma época que eu não vivi (risos). Do jornalismo esse de o repórter buscando algo a nos dizer de verdade, em busca de transmitir uma notícia e não apenas querer influenciar uma eleição, por exemplo.

Hipermídia: Qual a saída para isso?

Leo: A saída para essa situação grave… não tem receita. Acho que é seguir acreditando em bons profissionais que tentam sair da mesmice. É muito difícil, a gente sabe que a pessoa sai da faculdade, que precisa trabalhar e, às vezes, não tem muito para onde fugir (…) Mas que, pelo menos, se tente inovar, lutar pelo que se acredita. De repente tente empreender, a internet está aí para isso. Nunca foi tão urgente. Fake News hoje em dia, o que é isso? Tu poder combater isso ou pelo menos tentar minimizar, acho que é urgente, é um dever nosso. Se a gente desistir, o que vamos fazer? Está em nossas mãos, e tomara que esse filme que a gente realizou ajude um pingo que seja. Tem muitos novos jornalistas que nunca ouviram falar de Tarso de Castro. Se ajudar uma pessoa a se tornar um jornalista melhor, a se inspirar no Tarso, já dou nosso trabalho como tendo um resultado relevante.

Gostou e quer saber mais? Se inscreva na atividade que é gratuita, aqui. Ela acontece na sexta-feira, 26 de outubro, a partir das 14 horas.

Texto: Débora Silveira

Deixe uma resposta