Diretor projeta em filme o desespero de um pai

Se pudesse dar um conselho a quem está iniciando a carreira no cinema, Roberto Burd diria que existe um jeito certo de fazer as coisas. “Dedique-se ao filme e o transforme em uma verdade sua. Mas não faça de qualquer jeito. Faça com calma. Tenha preciosidade, capricho. Para levar seu filme e sua mensagem para o mundo”, recomenda. Mesmo que se tenha poucos recursos, ele aposta na importância de trabalhar bem a obra e reavaliar o roteiro até que esteja pronto para ser filmado. E na produção de grandes projetos, sugere a formação de uma equipe maior e experiente. “Fazer de qualquer jeito é fazer cinema de má qualidade e isso é ruim pra todo mundo”, completa.

É seguindo o próprio conselho que o porto-alegrense Roberto Burd produz seus trabalhos audiovisuais desde 2009. Em Telentrega, ficção selecionada para a Mostra Competitiva Brasil do Festival Santa Cruz de Cinema, ele também se entregou com tamanha dedicação. A produção se dá em torno de um pai viúvo, de 50 anos, que vive a angústia da espera por um transplante de coração urgente para o filho Rafael, que sofre de miocardite viral.

Telentrega é inspirado em um conto de Vera Cardoni, repetindo a parceria de Burd com a escritora, antes já realizada em Dia dos Namorados. Quando a ficção começou a ser produzida, o diretor conta que ele e Vera conversaram muito sobre doação de órgãos. Em certa oportunidade, foi convidado para conhecer o CTI de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, pelo marido de Vera, que é cardiologista. “Vi uma mulher de 30 anos, praticamente da minha idade, esperando por um coração sem ter a certeza de que se esse órgão chegasse, ela sobreviveria à cirurgia, devido ao longo tempo de espera”, relembra.

A realidade confrontada no Clínicas chocou tanto o diretor que ele diz não ter conseguido fazer de Telentrega um filme naturalista depois de presenciá-la. De forma que sua reação também não foi natural ao ver aquela cena. “Peguei esse recorte de um pai vagando como um zumbi na madrugada de um hospital, com trompetes do apocalipse na cabeça dele e com a chuva constante, para mostrar que ele realmente não tinha saída”, explica. Ele avalia que construiu em Telentrega uma fábula de terror em cima do tema, na qual pesou no som, formando uma orquestra de sintetizadores. É através destes recursos que o diretor traduziu o desespero daquele pai e de tantos outros que esperam na fila de doação de órgãos junto aos seus familiares.

Na ficção, o pai é interpretado por Nando Cunha, mais conhecido por viver papéis cômicos. A escolha do ator, segundo Burd se deu a partir de uma passagem em 2016 por Brasília, na qual gravava um longa-metragem. O diretor conta que Nando já manifestava a vontade de fazer um papel dramático, mas a oportunidade não havia surgido. Burd, então, prometeu que em seu próximo filme, ele seria o protagonista. “Busquei personificar a figura do pai no Nando e perturba-lo ao máximo para mostrar a angústia nessa esfera de salvar um filho a qualquer custo, esperando e contando com a sorte”, revela. Para o diretor, acima de cor da pele, classe social e de tudo, o filme quer mostrar um pai.

 

Roberto Burd e Nando Cunha nos bastidores de Telentrega (Foto/divulgação)

 

Momento para colher os frutos do trabalho

Em seu currículo, Burd carrega 14 longas metragens como primeiro assistente de direção. Entre os trabalhos, também há curtas metragens e videoclipes escritos, produzidos, dirigidos e editados por ele. Já filmou no Rio de Janeiro, São Paulo, Cuiabá e Brasília. Também no Chile, França, Marrocos, Venezuela e tantos outros lugares. Com esta bagagem, Burd considera que o cinema nacional vem sendo mais valorizado ao longo dos anos no Brasil e no mundo. “Leis de incentivo e políticas públicas bacanas deram a oportunidade para esse crescimento. Se hoje há filmes que são reconhecidos em festivais importantíssimos no mundo como de Cannes, Berlim, Rotterdam e Veneza é por causa disso”, avalia.

Telentrega já conquistou diversos prêmios no Brasil e no mundo. Direção, ator e montagem são alguns. Entre eles, os Kikitos de melhor fotografia em curta a Pedro Rocha e melhor ator em curta para Nando Cunha, na Mostra Competitiva Nacional do Festival de Cinema de Gramado, em 2017. A ficção já rodou pela Jordânia, pelo México e pela Colômbia. Fez bonito na Espanha como melhor filme de contribuição. Segundo Burd, a passagem do filme em festivais está na fase final, antes dele acertar a venda do licenciamento para ser assistido na televisão fechada.

A trajetória traçada até aqui com Telentrega, não faz da seleção para a mostra nacional no Festival Santa Cruz de Cinema, menos especial. Tendo acompanhado a iniciativa de criar o festival na cidade da Oktoberfest e acreditando na troca de experiências e ideias que estes eventos proporcionam, Burd inscreveu Telentrega no primeiro dia em que as seleções abriram. “Estar nesta mostra competitiva é motivo de muita alegria para mim e para toda minha equipe”, completa.

O diretor estará trabalhando em uma nova produção na próxima semana e, por isso, não estará presente no Festival Santa Cruz de Cinema. Mas avisa que Nando Cunha virá a Santa Cruz do Sul para representar sua equipe e o filme. Animado com a programação do evento, que segundo ele, contará com profissionais admiráveis nas oficinas e nas mostras, ele deixa um recado: “desejo vida longa ao festival. Infelizmente não vou estar aí, mas com certeza vou me fazer presentes nas próximas edições para celebrar o cinema junto com vocês”.

Telentrega será exibido no Festival Santa Cruz de Cinema, em 24 de outubro, a partir das 19h15min, no Auditório Central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

* Esta matéria faz parte de uma série de entrevistas realizadas com alguns dos indicados da Mostra Competitiva Brasil. Confira!

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