Festival discute o cinema como poder de transformação

Os filmes foram exibidos. Os representantes das produções estavam lá. O debate aconteceu. Artistas, cineastas e público mergulharam, após a primeira noite do Festival Santa Cruz de Cinema, em uma discussão sobre fazer e viver a sétima arte. No palco, Fernanda Etzberger e Louise Clós (O mar de Helena), Sarah Duarte (Acúmulo), Helena Poetini (Tekoá Koen-ju) e Swahili Vidal (Cabelo bom). Os realizadores representaram os curtas metragens selecionados pela comissão julgadora para a mostra nacional. Além desses, o filme Flecha Dourada também foi indicado, mas não teve representante na terça-feira.

O jornalista Mauro Ulrich mediou o bate-papo, que teve como primeira proposta pensar o curta como oportunidade de experimentação para o cinema e para a produção de longas metragens – filmes com duração mínima de 70 minutos. Para Sarah Duarte, roteirista e produtora de Acúmulo, o curta possibilita fazer testes e validar os conhecimentos na prática, antes obtidos na teoria. Ela destaca a importância e a particularidade deste tipo de produção. “Há histórias que se encaixam perfeitamente em um curta. E são melhores contadas nele. É preciso estimular o interesse das pessoas pelos curtas”, afirma.

Após assistir as produções, dentre as quais foram trabalhadas temáticas sociais como racismo, abuso das mulheres e preconceito com o cabelo afro, os realizadores trataram da importância do cinema. Informar, este é o papel do cinema na opinião de Helena Poetini, diretora de Tekoá Koen-ju. “Independentemente da minha presença física nos locais onde o filme for exibido, a cultura indígena vai ser vista e a informação será transmitida. O cinema promove conhecimento, educação e transformação”, salienta.

O cinema compreendido como espaço de manifestação e construção cultural e social também foi pauta na noite. “Muita gente foi educada a acreditar que o cabelo liso é o cabelo bom. Mas o cinema existe para ajudar a construir nossa identidade cultural. A arte liberta dessas amarras”, avalia Sarah. Para Louise Clós, do elenco de O mar de Helena, as produções promovem reflexão. “É as pessoas saírem refletindo a partir da arte, para então, pensarem sobre o que pode ser transformado”, explica.

Essa discussão levantou a importância de os cineastas darem espaço para todas culturais, etnias, povos, raças em suas produções. A sensibilidade com que os realizadores tratam o tema e se aprofundam nele, diz muito sobre a forma como estas temáticas serão abordadas nos filmes. Quando Helena iniciou o projeto de Tekoá Koen-ju, buscou referências em filmes produzidos por indígenas para entender sobre sua cultura, vivência e interesses. “Perguntamos a eles [os Mbyá-Guarani] o que achavam importante abordar no documentário, para então iniciarmos a produção”, conta.

Neste aspecto, Swahilli lamenta que os atores negros venham interpretando papeis, em sua maioria, relacionados a empregados e pessoas tachadas de gostosas. Preocupar-se com a representatividade de todas as pessoas é papel dos cineastas, segundo Sarah. Para Fernanda Etzberger, diretora de produção e produtora executiva de O mar de Helena, a problematização também diz respeito à presença de mulheres na produção dos filmes. “Nós estamos em minoria no cinema. Em curtas, a maioria são homens”, revela.

Na arte não há limite e nem amarras para abordar estes perspectivas. E na opinião dos realizadores que participaram da reflexão, reforçar em suas produções, temas que discutam preconceito, racismo, minorias ou a terceira idade, por exemplo, é fundamental. Mesmo com esta importância, o cinema enfrenta dificuldades. Dentre os assuntos que movimentaram a discussão, o financiamento das produções cinematográficas provocou reflexão sobre o futuro político do Brasil.

Swahili destaca que não é fácil obter patrocínio para custear um filme. “O financiamento está mais concentrado nas grandes produtoras. A nova política da Ancine (Agência Nacional do Cinema) – que regula o mercado do cinema e do audiovisual no Brasil – dificulta a obtenção de financiamento. Os editais permitem que se toquem os projetos. Mas sem dinheiro, é difícil fazer trabalho de qualidade”, avalia.

Para os cineastas, essa situação pode agravar. O futuro do audiovisual, com a eleição da nova presidência do Brasil se aproximando, preocupa os profissionais. Para Sarah, é preciso valorizar políticos que entendam que o cinema é tão importante como as áreas de engenharia e direito. Mais que dificuldades financeiras, a produção cinematográfica exige dedicação, compromisso e persistência dos cineastas. “Todo processo cinematográfico é difícil. Tudo precisa dar certo. As produções são planejadas durante meses. Acúmulo foi pré-planejado por seis meses. Cada detalhe, para que no dia da gravação nada dê errado. É difícil saber improvisar a partir dos erros que são cometidos”, avalia a produtora.

Em meio a dificuldades, vem à recompensa pelo trabalho realizado e pelo papel transformador provocado pela sétima arte. E o amor pelo cinema, ganha um outro ponto positivo, na visão de Helena: a facilidade que se tem hoje em divulgar e exibir filmes. “Acho válida qualquer iniciativa. Já me convidaram para exibir Tekoá Koen-ju em sala de aula. Algumas vezes, deixamos de lado a parte financeira para estimular a discussão acerca do filme”, considera. Para os cineastas, o objetivo é levar o cinema adiante, divulgando seus trabalhos, abordando temas que mexam com as pessoas e promovendo reflexão. “O curta tem que ser exibido para o mundo”, completa Sarah.

Texto: Taliana Hickmann

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